Caçador cotidiano

Assentou-se sobre a poltrona do ônibus e esperou para ver quem se assentaria ao seu lado. Tinha esperanças de que fosse a pessoa que havia nascido para ele. Trocariam elogios e os números de telefone. Sempre andava pelas ruas devagar, esperando que o amor de sua vida o parasse e pergunte as horas. Ele já havia ensaiado como responder. Depois de sorrisos mútuos, começariam a falar sobre um assunto qualquer – o clima talvez – e a partir dali ficariam juntos para sempre. Todos os dias, antes de sair de casa, escolhia a sua roupa mais bonita: às vezes uma das camisas xadrez, às vezes uma daquelas estampadas que o vestia tão bem. Arrumava o cabelo, perfumava o ego, enchia o coração de esperanças e ia à caça. Nem sabia o que procurava, mas procurava. Insistente.
Acontece que na lei da vida nem sempre o dia é do caçador. No caso dele, até aquele momento nunca havia sido. É como se a caça fugisse dele e, como sempre, voltava sozinho para a casa, com o cabelo despenteado, a camisa amassada, as mãos cheirando a cigarro e o coração do mesmo jeito que estava antes de sair: vivo, porém incompleto.
Mas sabia que nunca deveria se cansar de caçar ou esperar. Continuaria vestindo a sua melhor roupa; enchendo o coração de esperanças, sem o deixar afogar; e indo à caça. Não tinha dúvidas: um dia seria a vez do caçador.
Guilherme Givisiez

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