Da mesma forma que o amor pode estar nos palácios e mansões, pode existir amor nos barracos sem reboco

Ele abre a porta, deixa a bolsa sobre a mesa e, sem ver que ela o esperava com lágrimas no rosto, a cumprimenta:

_ Boa noite!

_ Precisamos conversar. _ Diz ela.

Ele, tirando os sapatos, ainda sem olhá-la, questiona:

_ Aconteceu algo?

Ela responde:

_ Estou indo embora. Vou te deixar.

Ele a olha assustado, vê uma pequena mala ao seu lado e, ainda sem entender o que estava acontecendo, diz:

_ Ir embora? Mas eu sempre te dei tudo! Nunca lhe faltou nada. Olha o tamanho dessa casa; eu lhe dei joias; nós comíamos os melhores pratos, utilizando as melhores louças e os talheres mais caros; a casa sempre esteve repleta de rosas; no verão a piscina sempre esteve cheia; no frio nunca faltou lenha para a lareira e os melhores tecidos nos aqueciam. O que faltou?

_ Amor! _ Responde a mulher aos prantos. _ O amor nunca esteve no ouro, nos talheres ou na sua piscina. O tamanho dessa casa nunca foi uma vantagem, pois a sua ausência fazia com que o meu silêncio ecoasse entre os cômodos. A minha solidão aflorava como as rosas do jardim e eu, aos poucos, padecia, como as rosas que eram arrancadas para perfumar a casa. É muito fácil ser aquecido pela lareira, quando a lenha está cortada e a cama arrumada. Quando você cortou a lenha? Quando você colheu as rosas?

_ E quem já te deu isso? Você veio do nada. Tudo o que você tem hoje, fui eu quem te dei. _ Diz o marido com a voz áspera.

A mulher continua a dizer:

_ Enquanto você estava no trabalho, sempre ocupado com o seu gado e as suas posses, o jardineiro me ensinou a colher as rosas que perfumavam não só a casa, mas também as mãos dele, as minhas mãos e o meu dia. Enquanto você não me chamava para um passeio, ele me convidava para ajudá-lo a cortar a lenha; era difícil, mas, assim, eu era aquecida duas vezes. Enquanto você não conversava comigo, eu o ouvia assoviar; aprendi a gostar…

O marido a interrompe e pergunta, ironicamente:

_ Você está apaixonada por ele?

_ Eu encontrei o amor nele. _ Responde a mulher.

O homem, aos gritos, diz:

_ E o que aquele homem vai te oferecer? Vão viver de amor e ter uma vida miserável, num casebre humilde? Você sempre gostou dessas roupas caras, das joias! Com ele, além de você não ter mais condições de comprá-las, não vai ter lugar para usá-las. É isso o que você quer?

_ O amor nunca esteve no luxo. Da mesma forma que o amor pode estar nos palácios e mansões, pode existir amor nos barracos sem reboco. Se uma família feliz se constituísse de riquezas, seríamos todos órfãos, pois nunca estamos satisfeitos com o que temos. Eu cansei de preencher o vazio que a falta de amor me fazia, ostentando tecidos, ouro e vivendo de aparências. Estou farta de te entregar o meu melhor por coação e me vender a você. Há anos tendo tudo, mas continuo vazia. Mas isso acabou, o jardineiro, por mais humilde que seja, me mostrou o meu verdadeiro valor e eu descobri que nem você, nem ninguém no mundo teria a quantia suficiente para pagar o quanto eu valho.

O homem a olha nos olhos e diz:

_ Você não vale nada!

A mulher pega a mala no chão e vai em direção à porta. Antes de sair, ela diz:

_ Eu prefiro passar o resto da minha vida ao lado de um homem humilde, a passar mais um dia sob o teto de um homem rico, mas que não tem amor.

Ela fecha a porta e parte.

O marido acaba de retirar os sapatos e vai jantar. Dois pratos sobre a mesa, mas apenas ele assentado. Naquela noite, sozinho, o marido viu o que a mulher sentia todos os dias quando ele saia para o trabalho: o silêncio realmente gerava ecos. Ele, assim como ela, desejou ter uma casa menor ou ter a mulher, a quem nunca demonstrou afeto, de volta.

Pela ausência de quem ele nunca havia notado a presença, aquele homem viu, tarde demais, que poderia ter todo o ouro do mundo, mas, sem o amor, algo sempre o faltaria.

Guilherme Givisiez

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