Que você encontre alguém forte suficiente para subir a sua âncora e abrir as velas que você tem, mas ainda não descobriu

O amor estava ali, ancorado. O mar estava calmo, o céu era azul. Naquela embarcação deserta, seu capitão, sério e forte, dançava sozinho. Eu, em meu barco a velas, o observava. Como quem convida alguém para uma dança, o capitão solitário pegou minhas mãos e me apresentou sua embarcação. Ele colocou em mim um de seus chapéus e me deixou guiar o seu timão desbotado, mas esqueceu-se de me avisar que a âncora não nos deixaria partir.

Eu já havia procurado o amor em Ruas, em Dias, em Matos, mas não havia o encontrado. Eu sabia que o amor estava no ar, mas, em terra firme, minhas raízes estavam fundas demais para eu poder alcançá-lo. Então naveguei.

Antes de me aventurar, pedi a benção dos Santos, mas, por querer saber demais sobre a história deles, acabei sendo amaldiçoado. Se soubessem o que passo com os ímpios, talvez entendessem quando eu disse que a felicidade individual não depende do coletivo.

O capitão me desafiou:

_ Você não parece saber dançar…

Pedi sua mão, mas ele conduziu. Seus passos eram lentos demais para a minha vontade de impressioná-lo. Dançávamos em ritmos diferentes. Pisei sobre o seu pé uma, duas, várias vezes. Não dei conta de que para dançar não precisa de movimentos acelerados, precisa-se de sincronia. Passos iguais.

Ao anoitecer, sentindo o bater ritmado de seu coração, eu disse a ele:

_ Capitão, é triste viajar sozinho. Deixe-me ir com você?

Então ele me explicou que a solidão era uma opção. Que sua embarcação permanecia sempre ancorada, pois sua filosofia era enfrentar as tempestades sozinho e sua âncora era tudo o que ele tinha.

Ele não me enganou. Eu é que fui precipitado demais. Deveria ter ancorado minha pequena embarcação, mas não o fiz. Meu barco se foi e eu não tinha mais nada. Entreguei ao capitão o seu chapéu cor de esperança e vi que era hora de deixar o barco.

Ó Carcará, leva-me um dia à África para que eu o veja dançar novamente. A fase da gloriosa metrópole  se foi, mas um dia, quando todos conhecerem seu nome, eu o acharei. Não para fazer parte de sua tripulação, mas para dizer a ele que eu estava certo e que a felicidade dele seria questão de tempo. E a minha tristeza gerada pelo mesmo motivo. O tempo machuca, mas ele mesmo cura.

Adeus, capitão de terra firme. Foi uma boa aventura. Mas a tempestade interior tende a piorar e a única âncora que eu tinha, deixei fixada no seu lado esquerdo. Vou atrás de terra firme para o meu coração, pois o enchi tanto de esperanças, que ele acabou se afogando…

Espero que o céu se abra para você e que o sol apareça. Que um dia você encontre alguém que seja forte suficiente para subir a sua âncora e abrir as velas que você tem, mas ainda não descobriu.

More about admin

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *