Amor, o sujeito

Sabia que não deixaria uma contribuição relevante para o mundo. Não seria lembrado por nada, não seria lembrado por ninguém. Não haveria monumentos em sua homenagem; nas praças não seriam colocadas estátuas com o seu rosto; sua assinatura não nomearia uma cidade, não nomearia um bairro, nem sequer uma rua. Assim nasceu, assim morreria: invisível.

Mas, embora a ideia de ser conhecido e lembrado por um povo fosse fascinante, para ele o fato de ser especial e inesquecível para apenas uma pessoa já era suficiente. Mas sua cara metade sempre foi um sujeito oculto em suas orações.

Depois de anos em busca do amor, perdeu, além das forças e da fé, todo o dinheiro nos vícios. Passou a frequentar bares, onde fez amigos verdadeiros: os bêbados inconscientes que viviam nas sarjetas; dormiu com mulheres de todos os signos, todas as cores e crenças. Com o passar do tempo, viu que, assim como os jogos de azar, o amor não era o seu forte. Já não procurava ser lembrado, não procurava ser amado. Embora respirasse, havia padecido.

Num dia nublado, cansado de vagar sem rumo pela cidade, assentou-se no banco da praça e testemunhou, por uma fresta na porta da igreja, uma das mais lindas manifestações de amor. A igreja estava linda e, diferentemente dele, as pessoas também. Os bancos ocupados fê-lo pensar que o amor de sua vida poderia estar ali, o esperando entre as flores que ornamentavam a igreja.

Correu para a casa, tomou banho, separou a sua melhor roupa que, na verdade, era um trapo – a falta de amor fez não só o seu coração deteriorar, mas também as suas roupas, a sua casa e o seu rosto -, Cortou um pouco do cabelo depressa, fez a barba, pegou o guarda-chuvas e foi rumo à igreja.

Quando chegou, todos haviam partido. Viu apenas o padre e uma mulher, conversando perto do altar. Teve vontade de tirar aquela roupa e jogá-la fora ali mesmo. Abaixou-se e, como um pombo faminto, recolheu migalhas de arroz da porta da igreja e as guardou no bolso.

Vagando sem direção, torna-se, embora sem barba e com o cabelo mais curto, o mesmo homem frustrado de antes. Gotas de chuva escorrem pelo seu rosto, levando consigo o último fio de esperança dele. Então ele abre o guarda-chuvas e continua andando, até ouvir uma voz:

_ Oi, moço?! Senhor?

Olha para trás e vê a senhora que estava na igreja conversando com o padre. Mais magra, mais alta e, aparentemente, um pouco mais jovem que ele. O homem nunca tinha a visto. Aproxima-se e diz:

_ Pois não.

_ Moço, eu estava no casamento, aproveitei para conversar com o padre e, por causa da chuva, não tenho como ir embora. O senhor não me daria uma carona? _ Pergunta a mulher.

_ Não tenho carro, senhora. _ Responde ele.

_ Mas eu me refiro ao guarda-chuva. _ Diz a mulher, sorrindo. _ Não moro muito longe.

_ Ah sim!

Ele se aproxima e ficam os dois sob o guarda-chuvas. Então, sobre os grãos de arroz que estavam no chão e eram levados pela água da chuva, o homem e a mulher partem. Ele pensa: “vou levá-la em casa e, de lá, vou para o bar que tem lá perto”. Depois de alguns minutos andando, o homem pergunta:

_ O que a senhora era dos noivos?

A mulher responde, sorrindo:

_ Nada. Tem gente que costuma ir aos velórios de desconhecidos, eu vou aos casamentos. Desde criança sempre sonhei em me casar. Como a vida não me deu esse privilégio, eu prestigio o casamento dos outros. Não viu o arroz na porta? Fui eu quem levei. Sempre levo arroz para jogar nos noivos, dizem que atrai prosperidade para o casal. Mas e o senhor, o que era deles?

_ Nada. _ Diz o homem, deixando um sorriso escapar. _ E eu cheguei atrasado, não vi o casamento.

_ Que pena… Foi lindo! Eu sempre vou a todos os casamentos. Às vezes até para a festa. Tenho muita vontade de pegar o buquê que as noivas jogam, mas, apesar da minha altura, eu nunca consegui. Acho que eles correm de mim… _ Fala ela, sorrindo. _ Eu sempre peço o buquê para quem o pegou, mas parece que a pessoa já levou a sorte que ele traz. Até hoje não me casei. Sempre tento plantar aquelas flores, mas nunca nascem. _ Diz a mulher, sempre sorrindo e falante. Ela pergunta: _ Já que o senhor não conhecia os noivos, o que fazia na igreja?

_ Achei que estaria lá quem eu procurei a minha vida inteira. _ Responde o homem.

_ Quem? _ Questiona ela.

_ Não sei. _ Ele fala, enquanto tira os grãos de arroz do bolso e os joga na rua molhada.

A mulher dá três tapinhas nas costas do homem, como se o consolasse, e diz:

_ Se você estiver falando do amor, eu também o espero há anos. Acredito que ele seja como um objeto sumido: quando você parar de procurar, vai encontrá-lo.

_ Então por que você o procura? _ Pergunta o homem.

_ Eu não procuro. Eu sou o objeto sumido. Apenas espero que ele me encontre. _ Responde ela.

Ambos ficam calados por alguns segundos. Então o homem diz:

_ Não nos apresentamos… Prazer, eu me chamo Antônio.

_ Prazer Antônio, sou Eleanor. _ Ela responde.

Ambos sorriem e se cumprimentam com as mãos.

_ Aquela é a minha casa. _ Diz a mulher, apontando o dedo para uma casa amarela do outro lado da rua.

Eles atravessam.

_ Muito obrigada pela carona, Antônio. _ Diz Eleanor, o abraçando.

_ Por nada. _ Responde ele.

Antes de entrar, Eleanor o chama novamente:

_ Antônio?!

Ele olha para trás e ela diz:

_ Sábado que vem tem outro casamento naquela mesma igreja, às 19h30. Você não quer ir?

_ Quero sim. Nos vemos lá. _ Diz ele sorrindo.

A mulher diz:

_ Caso chova, passe aqui às 19h para irmos juntos.

_ Combinado! _ Responde ele.

Naquele dia, Antônio não foi para o bar. Nem em nenhum outro dia. O homem viu que o que faltava, ele não encontraria em uma daquelas mesas, daquelas garrafas ou no balcão.

No sábado seguinte, dia do casamento, o tempo estava fechado, mas não chovia. Ainda assim, Antônio estava na porta da casa de Eleanor às 19h. Chegando à igreja, ela o pergunta:

_ Trouxe o arroz?

_ Não trouxe. Esqueci. _ Diz ele, abaixando a cabeça.

_ Eu imaginei quando vi que você se esqueceu do guarda-chuva. _ Disse Eleanor, sorrindo.

Da bolsa ela tira um pacotinho com arroz e o entrega a Antônio. Ele a agradece. A partir dali, foram juntos a todos os casamentos da cidade, sempre levando os seus respectivos pacotes de arroz. Não foram necessários mais que cinco quilos do grão antes que eles recebessem, de mãos dadas, na porta daquela mesma igreja, a sua própria chuva de arroz.

Agora, seriam lembrados para sempre. O sujeito de suas orações, antes oculto, tornou-se simples, explícito, eterno…

Guilherme Givisiez

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