Arquitetônico

Seus cenários, personagens e tramas nunca foram o seu ganha pão. Escrevia por amor, mas, durante um tempo, nem os amores o fazia escrever. A culpa poderia ser da abstinência de nicotina, havia parado de fumar pouco depois de escrever seu último texto e, talvez por placebo, não escreveu mais. Seu bloqueio criativo poderia estar ligado também à falta de uma paixão arrebatadora, teve alguns casos durante esse tempo, mas nenhum digno de um texto seu. O excesso de problemas também poderia estar motivando a falta de inspiração, seu momento não era dos melhores. Mas não queria voltar a fumar e, devido aos seus inúmeros problemas pessoais, uma paixão avassaladora estava fora de cogitação. Então, sem conseguir escrever se quer uma frase de efeito durante vários meses, pensou seriamente em mudar o rumo de sua vida. Poderia fazer uma nova faculdade, um curso de especialização, ou simplesmente se dedicar a outra área.

Esse pensamento martelou a sua cabeça durante dias. Tudo havia sido um erro: os amores inventados para criar poesias, os beijos dados com o intuito de reavivar a sua inspiração, os planos… Era hora de mudar, hora de seguir um rumo que fizesse com que o seu nome fosse reconhecido, com que o seu trabalho e a sua arte fossem eternizados. Como escritor, só enxergava um futuro moribundo, que, precocemente, estava prestes a morrer.

Depois de tentar, mais uma vez sem sucesso, buscar inspiração para escrever um texto, sentiu-se um completo inútil. Desesperou-se. Não sabia o que estava acontecendo, mas aquela havia sido a sua última tentativa como escritor. Desligou o computador, pegou a chave do carro e andou sem rumo. Precisava pensar o que faria dali para frente. Parado num semáforo vermelho, olhou para frente e admirou-se com o tamanho de um prédio em construção. Naquele momento, vendo a imponência daquele e tendo à disposição diversos outros edifícios refletidos no retrovisor, desejou ser arquiteto. Assim, poderia imaginar formas geométricas e desenhar construções monumentais, a sua arte estaria presente em vários cantos da cidade, possibilitando às pessoas observar e admirar seus grandes feitos. Seu nome seria eternizado e suas formas se tornariam referência, revolucionando a arquitetura de sua época. Mas ele sabia que não tinha vocação para o desenho e odiava os cálculos, ele só gostava de escrever.

O semáforo então ficou verde e ele seguiu. Passou em frente a uma universidade e avistou um professor ministrando uma aula. Pensou, então, em criar uma tese de mestrado para poder utilizar o seu conhecimento para ensinar outras pessoas. Poderia formar os melhores jornalistas, administradores, advogados… Seria lembrado por cada estudante que instruiu e teria a gratidão de cada um. Sua tese poderia ganhar destaque internacional e o seu nome seria eternizado por seus conhecimentos. Mas, embora soubesse muito para si, não por egoísmo, tinha dificuldade em ensinar. Sempre odiou a sua voz, tornando-se, ao longo do tempo, bom com as orações escritas, mau com as faladas.

Decidiu voltar para casa. No caminho, um outdoor de uma marca famosa o fez querer ser fotógrafo. Seria maravilhoso poder eternizar paisagens, momentos, pessoas… Suas imagens estampariam as revistas renomadas de turismo, estariam disponíveis nas campanhas das melhores marcas de roupas e eternizariam o seu nome, que estaria presente nos melhores editoriais. Além disso, artistas consagrados seriam clicados por ele. Mas seu olhar fotográfico nunca foi dos melhores e a sua habilidade com os programas de edição era pior ainda, ele só sabia escrever.

Desmotivado, ao chegar à sua casa resolveu traçar o seu próprio futuro. Ligou o computador, fez uma planilha e começou a colocar as possibilidades que teria dali para frente e quais seriam os desafios. Parou um pouco e lembrou-se das profissões que havia pensado no carro. Criou, então, uma analogia entre aquelas artes e a sua. Ao final, leu tudo em voz alta e viu que estava ali o seu mais novo texto. Depois de quase um ano sem escrever, ele, como um arquiteto das palavras, criou mais um texto que poderia, assim como um professor, ensinar muito a quem o lesse e conseguiu, como em uma fotografia, eternizar o seu momento. A partir daquele dia, ele viu que a sua arte tinha o mesmo valor que outra arte qualquer. Construindo cenários, personagens, tramas e histórias, o escritor eternizou-se para quem o leu.

Guilherme Givisiez

More about admin