Copos de leite

Nunca sonhou em receber um buquê de rosas, mas a única flor que Margarida não gostava era de si mesma. Embora amasse as flores e achasse os buquês uma demonstração de amor, sabia que, apesar de lindas, as flores estavam mortas. Não cresceriam, não dariam mudas, se perderiam rápido demais… Pensava em tudo a longo prazo: as amizades, os empregos, as flores, os amores. Mas, tirando o vaso de copos-de-leite, que ostentava próximo à janela da sala de seu apartamento, tudo em sua vida era passageiro.

Dois quarteirões ou, se medido em linha reta, menos de um quilômetro separava a janela da sala de Margarida da janela do quarto de Pedro. Amante da natureza, mas fiel à urbanização, Pedro achava as flores lindas, mas, em seu apartamento, só as via nos azulejos da cozinha e no detalhe de uma de suas toalhas. Gostava dos copos de leite, principalmente quando o leite estava gelado. Acreditava no amor, mas não sabia onde encontrá-lo. Seu quarto bagunçado era o seu refúgio e, quando pensava em arrumá-lo, dizia em voz alta:

_ É impossível arrumar as coisas por fora quando por dentro está tudo uma bagunça.

Talvez por não saber onde começar, nunca teve ímpeto para arrumar o seu interior.

Margarida, em mais uma noite de insônia em seu minúsculo e quase inóspito apartamento, vai fazer o seu monólogo de todos os dias. Pega o cigarro, o isqueiro, o cinzeiro e vai para a janela. Não se considera viciada, embora fume há mais de um ano. Só fuma em casa, pois tem medo de ser flagrada pelos colegas de trabalho. Acende o cigarro e, olhando a imensidão da cidade que a engoliu, repete a frase que traduz a sua filosofia:

_ O amor tem o tempo de um cigarro aceso para me encontrar.

Mas o amor nunca a encontrou. Talvez porque ela fume rápido demais, ou simplesmente porque Margarida só fume em seu apartamento e os únicos seres vivos, além dela, que o habita são os seus copos-de-leite.

Pedro, fotógrafo freelancer, acaba de editar a última foto do dia. O relógio em seu pulso anuncia: 3h. Vai à geladeira, prepara um copo de leite, acende o cigarro. Leite e cigarro não é uma combinação muito comum, mas é o que o acompanha todas as noites. Olhando a cidade pela janela de seu quarto, apenas o apartamento de Margarida tem a luz acesa. A cidade adormeceu cedo demais, deixando ambos abandonados. Pedro põe-se a pensar: “Será que o amor da minha vida está naquele apartamento, o único com a luz acesa a essa hora?”.

Dois quarteirões distantes de sua janela, Margarida, com um cigarro em uma das mãos e acariciando os seus copos-de-leite com a outra, põe-se a pensar: “Estaria dentro daquele apartamento, o único com a luz acesa a essa hora, o amor da minha vida?”

Ambos se olham, mesmo sem se ver; se questionam, mesmo sem se falar; e, indiretamente, desejam ser encontrados um pelo outro. Após alguns minutos de esperança, a luz do quarto de Pedro se apaga.

_ Droga! Vou ter que trocar a lâmpada às três da manhã… _ Diz o fotógrafo.

Pedro deixa o copo e o cigarro sobre a janela. Pega uma lâmpada nova e uma escada. Margarida, embora odiasse deixar os seus cigarros pela metade, apaga o seu, com a brasa ainda longe do filtro. Teria disposição para ficar mais tempo, mas viu a luz daquele apartamento se apagando como um sinal de que a esperança para aquela noite havia se acabado. Despede-se de seus copos-de-leite, apaga a luz da sala e se deita.

Pedro troca a lâmpada e a acende, mas a luz da sala de Margarida já não brilhava mais. Assim como os olhos de ambos, acesos pela possibilidade de encontrarem o amor, mas apagados pela falta de coragem de ambos. Por um momento se perderam, imaginando como seria se amor de suas vidas estivesse naquelas janelas.

E estava. Mas eles não sabiam…

Guilherme Givisiez

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