Em construção

Na infância, sua fértil imaginação materializava o amor na figura de um garboso rapaz. Mas, embora fosse lindo, o causava grande comoção. Talvez pelo fato de sempre ouvir a mãe e a irmã, em suas conversas sobre as moças da vizinhança, dizerem em tom de piedade:

_ O amor é cego…

Desde muito novo já perdia o sono pensando no amor. Queria conhecê-lo, abraçá-lo ou simplesmente dizer a ele:

_ Amor, espero que um dia você possa enxergar… _ Mas, na infância, não o encontrou.

Depois de um tempo, começou a entender que o amor não era uma pessoa. Apesar de tudo, ficou feliz por não se tratar de um rapaz cego. Começou, então, a idealizar o amor como um produto. Talvez ele fosse vendido nas lojas de sapatos, já que ouvia sua irmã dizer às amigas:

_ Que amor a sua sandália nova!

Na adolescência, sua visão se aproximava da realidade: sabia que o amor não era uma pessoa, nem uma coisa que se vendiam em lojas de sapatos. Mas, até então, só havia aprendido o que o amor não era, começou a querer entender o que aquele substantivo abstrato significava. O dicionário estava repleto de definições, mas seu coração vazio demais para compreendê-las:

Amor: 1 Sentimento que impele as pessoas para o que se lhes afigura belo, digno ou grandioso. 2 Grande afeição de uma a outra pessoa. (…) 4 Objeto dessa afeição. (…)

Na verdade, em sua gramática, o amor não era um substantivo inteiramente abstrato, embora não fosse algo palpável, como os sapatos das vitrines, sabia que poderia senti-lo um dia.

Na juventude, entendeu que conhecer o amor pleno não era algo que dependia apenas da sua curiosidade ou da leitura do dicionário. O amor era como um brinquedo de montar; como um cordão de duas metades, mas apenas uma parte estava em suas mãos e não havia bússola nem mapa que mostrasse a direção correta da outra. Então juntou a sua esperança em uma pequena mala e partiu em busca do amor.

Procurando a outra metade, encontrou várias peças sem encaixe. As que mais se aproximavam da sua estavam enferrujadas ou amassadas demais. Outras se repeliam, como imãs com as polaridades iguais. Em sua busca, viu, em pequenas atitudes, a materialização do amor – e, em outras, a falta dele. Em seu caminhar, ouviu, assim como na infância, algumas vozes que diziam:

_ O amor é cego!

Mas, diferentemente da infância, não sentia pena dele. Além de saber que o amor não era um rapaz, aquele garoto viajante não julgava as pessoas simplesmente pelo fato de amarem. Ele sabia que o amor poderia cegar muita gente, mas, quando era verdadeiro, não ocultava a visão, mas fazia com que as pessoas se amassem por completo: em seus defeitos e qualidades.

Em sua caminhada, ouviu, da boca de desiludidos com o amor, ofensas. Cada vez menos pessoas acreditavam no que ele procurava:

_ O amor não existe…

Mas, embora ainda não tivesse encontrado a sua metade, as vezes que se iludiu, acreditando poder juntar partes sem encaixe, o fez louco – pois apenas eles, em tempos de desamor, poderiam acreditar que um dia encontrariam a outra metade – e o mesmo motivo o fez sábio.

No final desse texto, o personagem, que desde sempre, de diferentes formas, procurava o amor, poderia tê-lo encontrado ou terminado sozinho; poderia ter sido feliz ou infeliz; poderia haver infinitos finais… Mas desculpe-me, caro leitor, esta história ainda não teve fim. O personagem secundário, considerando-se o amor protagonista, é quem vos escreve e a busca não terminará enquanto não encontrar o verdadeiro amor ou enquanto houver forças para buscá-lo.

A outra metade está por aí, a esperar numa noite fria ou vagando pela Rua da Bahia…

Texto em constante construção.

Guilherme Givisiez

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