Eu não morri por Maria

Apenas eu, o trocador e o motorista. Até aquele velho simples entrar, eu era o único passageiro do ônibus. O homem, de uns sessenta e poucos anos, parecia ter se arrumado para uma consulta médica ou para uma perícia no INSS. Portava, além de um olhar triste, uma sacola pequena e um guarda-chuva em uma das mãos. Ele passou a roleta, me olhou e se assentou ao meu lado. Senti-me extremamente incomodado. Questionei-me: “O que motivaria aquele velho a assentar-se ao lado da única pessoa do ônibus?”. O velho então, com um paletó cheirando à naftalina, me pergunta:

_ Você ama alguém, meu filho?

Estranho a pergunta e demoro a responder. Era só o que faltava: depois de um dia horrível, um velho, cheirando à naftalina e com necessidade de dialogar, vir assentar-se ao meu lado. Respondo:

_ Amo.

Então ele diz:

_ Eu também amava: Maria.

Ele tira uma foto 3×4 antiga da sacola que carregava e me mostra a mulher. Pego a foto enquanto ele conversa:

_ Eu sei que ela me amava. Eu sentia. Por mais que, às vezes, nós discutíssemos e fossemos dormir de costas um para o outro, ela me amava. Eu via o amor em seu olhar de alegria quando eu chegava mais cedo do trabalho e, ainda com o avental, ela vinha me receber. Via o amor às quartas-feiras, quando ela não assistia à novela, pois sabia que eu assistiria ao jogo, ela sempre dormia no sofá antes do segundo tempo. O seu amor estava presente aos domingos, quando, mesmo tendo todas as panelas sobre a mesa, ela me mostrava, uma a uma, o que havia preparado e, sempre que cozinhava frango, colocava as duas coxas no meu prato; ela também gostava da coxa, mas, por saber que era a parte que eu mais gostava, me dava as duas. Em pequenos gestos, ela demonstrava o seu amor diariamente, abrindo mão das suas vontades e dos seus desejos para que eu pudesse satisfazer aos meus.

_ E onde ela está? _ Questiono.

Ele então pega a foto da minha mão, olha para o retrato da mulher e me responde:

_ Estou voltando do cemitério. É o fim de todos nós, não é menino? Parada cardíaca. Nem teve tempo de chegar ao hospital.

Engulo a seco e digo:

_ Sinto muito, senhor!

_ Não sinta. _ Responde ele. _ Quem deve sentir muito sou eu. Eu via o amor dela todos os dias, mas quando Maria viu o meu amor? Quando eu abri mão de algo por ela? _ Ele guarda a fotografia na sacola e continua a falar: _ Eu daria o pouco resto de vida que tenho só por mais um dia com ela. Um dia não, algumas horas… Só o tempo suficiente para mostrar a ela que não era o meu emprego, não era o futebol, não eram as minhas economias… A coisa mais importante da minha vida era ela. Não sei se ela partiu com essa certeza. Digo com muita tristeza: eu nunca deixei de assistir a uma partida de futebol por ela; nunca assisti a um capítulo da novela com ela. Ela nunca me culpou, filho, por eu não realizar o maior sonho de sua vida: ela sempre quis ser mãe, mas Deus não permitiu que eu fosse pai. Eu sim, sempre a culpei. Sempre me impus quando ela falava sobre adoção, sempre briguei quando ela se queimava, fazendo doces para as crianças da vizinhança. Hoje eu não tenho ninguém. Eu fui um tolo todos esses anos…

Emocionado, o senhor tira um lenço branco da sacola e enxuga o rosto. Eu não sabia o que dizer, nem o que fazer. Provavelmente aquele lenço havia sido lavado por sua mulher, quem colocou a naftalina que originava o cheiro em seu paletó azul marinho foi ela. É certo que a casa tenha ficado arrumada, as roupas dobradas, mas o que isso significaria para aquele homem quando ele chegasse sozinho em casa? Uma lágrima escorre dos meus olhos. Abaixo a cabeça e o ouço dizer:

_ Filho, se você ama alguém a ponto de dar a sua vida pela pessoa, não espere essa oportunidade chegar. Pode ser que, assim como fez a mim, a vida não te dê tempo para demonstrar isso. Quando amar alguém a ponto de perder a vida pela pessoa, morra um pouquinho a cada dia. Abra mão de algumas coisas pela felicidade do outro e valorize quando fizerem o mesmo por você. Morrer por alguém, não significa perder a vida pela pessoa. Morrer por alguém é simplesmente, em pequenos atos, se dar um pouco diariamente, é fazer com que cada momento seja eterno.

Dou sinal. Explico ao senhor que a minha hora de descer havia chegado. Ele se desculpa pelo que, segundo ele, havia sido uma necessidade de conversar com um amigo. Desço. Pego o meu celular e faço uma ligação.

_ Oi?! _ Responde.

_ Você me perdoa? Eu te amo! _ Digo.

_ Também te amo muito. E também te devo desculpas. Aconteceu algo? _ Questiona.

_ Eu quero morrer. _ Respondo.

_ Para! Por que você está dizendo isso? _ Pergunta com a voz assustada.

Respondo:

_ Porque eu te amo e eu quero morrer por você um pouquinho a cada dia.

Guilherme Givisiez

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