Uma xícara de café?

A visita entrou, sorriu e disse:

_ Lá de fora senti o cheiro do café.

_ Acabei de coá-lo. _ Respondeu o dono da casa.

A mesa estava posta: leite, pães, geleias e frutas em abundância. A visita assentou-se, enquanto o dono da casa buscava o café. Ao voltar, tinha um bule na mão direita e um coração na esquerda. Perguntou à visita:

_ Você quer uma xícara de café ou o meu amor?

_ O café foi preparado com coador de pano? _ Perguntou a visita, observando o bule.

_ Sim. _ Respondeu o dono da casa.

_ Dois dedos, por favor! _ Pediu a visita.

Depois de algumas conversas, o dono da casa colocou o seu coração sobre a mesa. Pegou a garrafa de leite e, sorrindo, perguntou:

_ Você aceita leite?

A visita respondeu, sem olhar em seus olhos:

_ Você está me pressionando demais. Você não sabe se eu gosto do meu café puro, nem se tenho alergia à lactose. Eu só aceitei uma xícara de café.

_ Perdão, eu só ofereci um pouco de leite. Não estou oferecendo mais o meu amor. Não estou te pressionando, nem tentando te prender à minha mesa. Você é livre e, quando somos livres, andar de mãos dadas não é uma prisão, é uma escolha. Faça como quiser com o seu café, eu me viro com o meu coração. _ Respondeu o dono da casa.

_ Não se desculpe. _ Respondeu a visita, que completou: _ O problema não está em você, está em mim. Gosto de me assentar sobre novas cadeiras, admirar variadas estampas de forros de mesa, gosto de xícaras de cores e tamanhos diferentes. As maiores são as que mais me apetecem.

_ Eu te entendo. E fico feliz ao ouvir isso; torna as coisas mais fáceis. Eu não quero passar o resto da minha vida coando café para uma pessoa que acha o tamanho e o formato de uma xícara mais importante que o conteúdo dela. O seu medo de enjoar fácil demais do café de alguém é oriundo do fato de que você ainda não se assentou sobre a cadeira adequada, com a mesa e o forro apropriados e com a xícara certa, pois, quando isso acontecer, será o café mais amargo que você provará e vai ser nele que você vai viciar.

_ Acho que isso nunca acontecerá, e, se acontecer um dia, não será com você. O seu café é doce. Nunca te pedi mais que uma xícara de café. Guarde o seu amor e entregue-o a quem queira encher o coração, pois eu só quero encher a minha xícara. _ Enfatizou a visita.

O dono da casa pegou o coração e o guardou no bolso. Depois de alguns segundos calados, a visita disse:

_ Agora tenho que partir. Há mais mesas de café arrumadas à minha espera, há mais xícaras diferentes para eu conhecer. Quando passar por aqui e sentir o cheiro de café, subo para tomar mais uma xícara.

_ Você não sentirá o cheiro do café, pois eu não tomo café. Só coei este por você, mas, caso você sinta o cheiro do grão saindo pelas minhas janelas, acredite, haverá outra pessoa assentada sobre essa cadeira. Espero que, em uma das suas visitas, você encontre a xícara certa e que o café esteja ao seu gosto, já que o meu estava doce demais para a sua escolha amarga. _ Respondeu o dono da casa.

_ Acho que isso foi um adeus, né?!… _ Questionou a visita.

O dono da casa não respondeu. A visita se levantou e foi em direção à porta. Na saída, um trovão fez o dono da casa demonstrar que aquele não era um adeus, era apenas um sinal de que queria mais que um amor unilateral e que a sua esperança estava longe de ter fim:

_ Leve o meu guarda-chuva, acho que vai chover.

Guilherme Givisiez

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