Algumas pessoas amam tanto, que tornam-se nobres amantes, mas mendigas de amor próprio

Algumas pessoas amam tanto, que tornam-se nobres amantes, mas mendigas de amor próprio. Elas ficam tão dependentes de esmolas afetivas que não vêm que é hora de mudar o foco e tomar outro rumo. Muitas dessas pessoas nunca encontrarão o amor verdadeiro, por perderem tempo demais acreditando que as migalhas que recebem são suficientes para matar a fome do coração. Mas não são.

O rapaz, que conheceu o amor há quatro semanas, estaciona o carro. A pessoa nunca lhe prometeu nada, nunca disse que o queria para sempre, mas, em compensação, nunca lhe disse que não. Sem sair do carro, ele liga para ela:

_ Oi, estou aqui embaixo. Trouxe sorvete. Desce rapidinho, senão vai derreter.

_ São 15h, não gosto de sair no sol. Vamos marcar outro dia. _ Responde ela.

_ Mas nós tínhamos combinado… – Contesta ele.

_ Hoje não. Impossível! _ Ela pondera.

Há quem ame verdadeira e intensamente uma pessoa que conheceu há pouco tempo: amor à primeira vista. Sem saber exatamente se a prioridade é recíproca, essas pessoas fazem de tudo para ser a primeira opção na vida do outro, mas, muitas vezes, quem dá tudo de si na primeira noite, acorda sozinho no primeiro dia…

Quatro dias depois, o rapaz, usando seu perfume amadeirado e uma de suas camisas favoritas, desce, com um guarda-chuva na mão, as escadas do prédio onde mora. Enquanto desce os degraus, liga para ela:

_ Estou saindo de casa para irmos ao café. Daqui a pouco chego aí.

_ Está chovendo. Se eu sair, vou molhar os meus sapatos com a água suja da chuva. Marcamos outro dia. _ Responde ela.

_ Mas nós tínhamos combinado… _ Contesta ele.

_ Hoje não. Impossível. _ Ela pondera.

Há pessoas que amam com a esperança de que a reciprocidade se construa da mesma forma que se constroem casas. A verdade é que o amor nasce como uma flor silvestre, mas precisa de cuidados para crescer e florescer.

Três dias depois, o rapaz recusa um convite para jantar com os seus amigos e liga para ela:

_ E aí, o que vamos fazer hoje?

_ Combinei de ver uns amigos e não gosto de desmarcar os meus compromissos. _ Responde ela.

_ Mas hoje é meu aniversário. _ Contesta ele.

_ Comemoramos outro dia. Hoje não. Impossível. _ Pondera ela.

No outro dia, com o telefone na mão para ligar mais uma vez, cansado de sempre dar forças à sua necessidade de externar, mesmo que indiretamente, o seu sentimento – mas receber migalhas em troca – e exausto de dar valor a quem tinha apenas desculpas para oferecer, olhou-se no espelho e viu ali a pessoa a quem ele mais deveria valorizar. Entendeu que não poderia escolher por quem se apaixonar, mas que caberia a ele alimentar ou matar aquela paixão; compreendeu que, quando um não quer, dois não amam; e que, às vezes, é preciso olhar pra trás e ver que, assim como ele estava correndo atrás de alguém, poderia haver alguém esperando uma chance para fazê-lo feliz. Era uma questão de ponto de vista e, a partir daquele dia, o rapaz decidiu alimentar apenas os amores que dependiam dele para serem recíprocos. Ligou para os amigos e comemorou, com um dia de atraso, o seu aniversário.

Passados vários dias, o seu telefone toca. O nome, escrito no visor do aparelho celular, faz com que as borboletas, adormecidas em seu estômago há dias, voassem impetuosamente:

_ Alô?

_ Oi! _ Ela diz.

_ Oi! Tudo bem? _ Pergunta ele.

_ Tudo. Poxa, você sumiu. Não me ligou mais… aconteceu algo? _ Questiona ela.

_ Não está tudo tranquilo. Você também sumiu. Você notou a minha ausência, pois sempre fui eu quem te procurei. Mas o procedimento que eu realizava para fazer as ligações é o mesmo que você precisaria fazer caso sentisse vontade; como agora… _ Ele responde.

_ Eu não sabia que gostava de você, mas, nesses dias que você não me procurou, eu vi que gosto, pois senti a sua falta. _ Explica ela.

_ Não, você não sentiu a minha falta. Você sentiu falta de alguém que te procurasse. _ Ele Retruca.

_ Não fala isso… Estou com saudades de você. O tempo está ótimo, vamos sair para tomar um café, conversar e fumar um cigarro? _ Convida ela.

Todas as borboletas do seu estômago pararam de voar. Decidido, ele responde:

_ O tempo está realmente ótimo para um café e um cigarro: não está quente, não está frio; não há sol, não há chuva; mas também não há mais amor. Combinei comigo mesmo de me colocar em primeiro lugar na minha vida e, assim como você, eu não gosto de desmarcar os meus compromissos.

_ Mas nós combinamos tanto. _ Contesta ela.

_ Impossível… _ Ele pondera, desligando o telefone.

Guilherme Givisiez

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