Como um isqueiro com pouco gás, nosso amor nasceu moribundo, nos apagamos cedo demais

(…) O amor é como um cigarro: a paixão o acende, o desejo fortalece a sua brasa e o coração recebe toda a toxina que vicia. Mas, assim como um cigarro, o amor também tem validade. Quando a brasa encontra o filtro, o amor se apaga.

Odeio deixar os meus cigarros pela metade, mas não vou perder tempo tentando fumar um que já se apagou. Tornamo-nos intragáveis e, agora, o que me resta é deixá-lo na memória. Num cinzeiro cheio de cigarros pela metade e histórias que eu nunca consegui terminar.

Como um isqueiro com pouco gás, nosso amor nasceu moribundo, nos apagamos cedo demais.

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Acaba de escrever mais um texto, acende outro cigarro e vai para a varanda. Observando a noite pelo sétimo andar, começa a pensar sobre suas histórias. Nunca soube escrever um texto com o final feliz, todos os seus personagens carregavam mágoas, dores. Os seus rascunhos eram o prenúncio do desamor. Quando questionado sobre o motivo de não escrever histórias felizes, a resposta já estava ensaiada:

_ Os finais são tristes, pois eu não escrevo quando estou feliz. Momentos bons eu vivo intensamente, não perco tempo escrevendo sobre eles.

Mas, naquela noite, o jovem se deu conta de que ele só não escrevia finais felizes, por que a falta de uma relação sólida o fez cético em relação ao amor, implicando em seus finais infelizes. Percebeu que quando externava os seus sentimentos em forma de palavras, eles se eternizavam. E se tudo o que ele tinha para eternizar eram as quedas passadas, as dores com as relações vazias e sentimentos de perda, teria exatamente o mesmo final que todos os seus personagens tinham: a solidão.

Acaba de fumar, tira o pijama e veste a sua melhor roupa. Penteia o cabelo, perfuma-se e sai. Não sabe aonde vai, sua única certeza é que precisa de uma nova inspiração: uma aventura com o começo bonito, que o faça idealizar um final diferente dos que estava acostumado a criar. Os textos que escrevia, baseados em suas aventuras passadas, sempre levavam os seus personagens para o mesmo destino: o desamor.

Estaciona o carro próximo a um bar, entra e se assenta próximo ao balcão. Observa, discretamente, as pessoas que estão bebendo nas mesas. Vê amores nascerem e morrerem com a mesma intensidade com que via os copos cheios serem esvaziados; vê paixões que duram até que a brasa do cigarro alcance o filtro; vê reflexos de uma geração perdida que, em relação ao amor, muito se fala sobre o substantivo, mas pouco se faz pelo verbo. Sobre as mesas, os líquidos das garrafas estavam pela metade. Coincidência, aqueles corações também.

Durante alguns minutos espera uma abordagem. Encara homens, mulheres, encara a todos que o dirigem o olhar. Depois de um tempo assentado, levanta-se com o copo na mão, tira do bolso o isqueiro e o cigarro; o som da banda distancia, enfraquece. Até que é quebrado por uma pergunta:

_ Você tem isqueiro?

Na verdade, muitas vezes o isqueiro é apenas um álibi, uma armadilha que uma pessoa vazia faz à outra, tentando se completar. Seria mais fácil se, ao invés de pedir o isqueiro, aquela pessoa o pedisse um pouco de amor. Mas, talvez pelo medo de não haver reciprocidade na busca, pedir um pouco de fogo seja, naquele momento, o máximo que ela disponha para obter a resposta. Ele responde:

_ Tenho.

Tira o isqueiro do bolso, entrega-o. Se olham por alguns segundos.

_ Valeu! _ Diz a pessoa.

_ Às ordens! _ Responde ele.

Enquanto fuma o seu cigarro, vê a pessoa partir. Tantas coisas a serem ditas, gestos a serem feitos, tantos sorrisos… Poderia começar ali uma história curta, como todas as outras, mas com o final feliz. Entretanto, assim como um isqueiro sem gás, aquela noite não acenderia nenhuma história.

O jovem volta para o apartamento e, previsivelmente, sente-se como todos os seus personagens: incompleto. Ele utilizou todas as letras do alfabeto, dando vida a vários personagens, e, nos livros que publicou, eternizou várias histórias. Mas, embora dominasse as regras gramaticais, tornou-se analfabeto para criar um final feliz para a sua própria história.

Guilherme Givisiez

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