A janela de Carlos

As lembranças de Elizabeth não o faziam tão mal quanto antes. Na verdade, depois de um tempo, Carlos aprendeu a pensar nos bons momentos e a sorrir sozinho ao se lembrar deles. Viúvo há quase 10 anos, as lembranças da mulher, um peixe e a cadeira de madeira, colocada próxima à janela da sala, eram as suas companhias diárias. O casamento só não durou mais que os anos dedicados à profissão. Depois de 46 anos como professor, perdeu as contas de  quantos estudantes ajudou a formar. Mas apesar do amor ao trabalho, o que o aposentado mais sentia falta era de Elizabeth.
Em seu pequeno apartamento, grande para o vazio que restou depois da partida dela, Carlos passava a maior parte do tempo na janela. Além da saudade, cultivava também três cactos e cuidava de Simão, o seu peixe. O aparelho de televisão velho, que tantas vezes serviu para entreter o casal, agora ficava desligado. Carlos já nem sabia se ele funcionava. Todas as informações que chegavam a ele eram provenientes do informativo mensal que o condomínio disponibilizava e do que ele via pela janela de seu apartamento. Esticando o pescoço para a rua, com a ajuda das lentes dos óculos, os seus olhos conseguiam alcançar o perímetro entre o número 1275 e 1893; o seu mundo se resumia àquilo.
Do terceiro andar não era possível ter uma vista panorâmica da cidade, mas, acompanhando as janelas dos prédios do outro lado da rua, o vai e vem dos carros e das pessoas e o movimento no ponto de ônibus em frente à sua janela, conseguia ver o que acontecia no resto dela. Da janela de seu apartamento, viu a ascensão da construção civil, a verticalização dos centros urbanos e o aumento da população; viu a frota de carros crescer e o espaço nas ruas diminuir; viu a moda mudar uma, duas, várias vezes; viu os smartfones se popularizarem e a cordialidade ser extinta; viu as pessoas se aceitarem, mas também testemunhou intolerância; viu o país omitir educação e, assim, exibir altos índices de violência. Em quase 10 anos, observando a vida pela janela, viu o amor perder espaço para o dinheiro, para o ego e para a maldade…
Há anos Carlos não descia as escadas do edifício. Jorge, o síndico, se encarregava de fazer as compras para aquele senhor que inúmeras vezes, antes de se trancar em seu apartamento, o ajudou. Carlos tinha medo das ruas… Apesar de também ver coisas boas pela janela, a violência o fez um prisioneiro do mundo. Sem filhos, Carlos não via necessidade de ter um telefone ou um computador em casa. Isolado da tecnologia, seus sinais de vida eram enviados aos seus parentes, distantes em todos os sentidos, por meio de cartas. Mas há anos Carlos não as escrevia…
Não tinha medo de morrer. Embora não tivesse filhos para deixar o seu legado, realizou-se instruindo e formando profissionais de diversas áreas. Realizou-se também sentimentalmente, dando amor – e recebendo na mesma medida – àquela que sempre foi a mulher de sua vida. O seu único medo era partir sem deixar o seu último desejo. Por isso, na parede de sua sala, com um pedaço de giz, retocava diariamente aquilo que traduzia a sua filosofia e o seu último desejo para o mundo: “Eu quero ver as cidades cada vez mais violentas: corações sendo roubados, preconceitos sendo destruídos e mais pessoas viciadas no amor. No mais, paz. Por favor!”

 

Guilherme Givisiez

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